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terça-feira, 20 de abril de 2010

Ponto final

No sábado, lá no Encontro, meu irmão me disse que na segunda-feira estaria em SP e que me ligaria. Tinha um assunto para resolver por essas bandas. Achei que a gente ia se encontrar, almoçar juntos, talvez. Já havia até esquecido, quando ele me ligou por volta da hora do almoço. Disse que já estava na estrada, rumo à cidade onde ele mora. Não entendi nada. Mas, então, ele me contou, delicadamente, a razão pela qual esteve aqui. Tinha vindo fazer a exumação. Do meu pai. Disse que, apesar disso estar longe de ser agradável, não havia sido desesperador como ele (ou seria eu?) supunha. Entre eu e meu irmão, há coisas que não precisam ser verbalizadas, porque, apesar de divergimos em muitos assuntos, conhecemos muito bem um ao outro (e eu vou ser eternamente grata, por falta de uma palavra melhor, a ele por ter ficado à frente desta tarefa). Enquanto ele falava, a sensação de tristeza vinha. Nem sei explicar. Não que a exumação em si altere o quadro de que meu pai está morto. Não é isso. Mas, é como se, simbolicamente, a etapa tivesse sido finalizada, terminada, acabada. Como quando, no jurídico, não cabem mais recursos. Assim como quando se termina um livro e, depois do ponto final, não existe mais nada. Resta o vazio. E, apesar disso ou por causa disso, continuo pensando no meu pai. Não são pensamentos tristes. São lembranças, palavras, vislumbres de cenas passadas... Sei que depois do ponto final do livro, posso voltar à primeira página e ler tudo novamente. No caso do meu pai, posso relembrar, mas, a cada dia que passa, as páginas estão mais amareladas, a resolução das cenas diminuiu um pouco mais, as lembranças vão ficando esmaecidas e o som, distorcido. Isso me deixa meio agoniada. E não há, infelizmente, nenhum processo externo que resolva isso. É o ponto final.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Da morte

Poucos dias depois que o meu pai morreu, fui buscar a certidão de óbito no cartório. Não sei bem o porquê de eu ter sido incumbida desta tarefa, provavelmente por causa da minha flexibilidade de horário. Eu fui, mas não queria. Dirigi tensa até o destino. Chegando lá, lembro que entreguei o papelzinho para a moça e ela pediu para eu aguardar. Foi o que fiz. Chorando. Só as lágrimas escorriam, eu não emitia nenhum som. A não ser que olhassem para o meu rosto diretamente, ninguém perceberia minha tristeza. E foi o que a moça fez, quando me entregou a certidão. Ela me olhou e meio que ficou embaraçada, acho, com as minhas lágrimas. Não me disse nada. Talvez seja cena comum na sua labuta diária. Mas, também, mesmo que tivesse tentado me confortar, creio que não teria conseguido. Porque, naquele momento, era oficial a minha orfandade paterna. E não sei o porquê disto ter me deixado tão mal. Era como se, enquanto aquele papel não se materializasse, tudo pudesse, em algum momento, ser revertido. Então, com a certidão em mãos, eu sabia que, tudo era definitivo.

 



Isso veio a minha lembrança hoje, porque já se fazem necessários os procedimentos para a exumação. E eu, fraca que sou, não queria ter nenhuma ciência disso, saber de nada. Meu irmão, solidário, se prontificou a assumir essa tarefa, juntamente com a minha tia. No entanto, alguns documentos meus são necessários, então, já estou ciente do que não gostaria de estar. E eu mesma me pergunto quem sou eu para querer escolher com qual tarefa dos assuntos vida/morte quero lidar ? Quem me deu esse salvo-conduto ? Ou porquê eu teria algum tipo de passe especial ? Não tenho. Não fossem meu irmão e minha tia, teria eu mesma que fazer isso. Então, aos dois, meus sinceros agradecimentos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Tic-Tac

Pausa no trabalho. Estou desconcentrada!

Muitos presentes ontem ? Meu marido recebeu sim. Também, com tantos filhos... Além da esteira, que está a caminho (socorro!), ganhou vários presentes. Dentre eles, um despertador. Super fofo. Desses tipo revival, sabe ? Modelo antigo repaginado. Só que tem um problema. O relógio faz tic-tac-tic-tac-tic-tac... Não estou aguentando... Sabe quando a torneira pinga ? Aquele barulhinho constante, chato ? Pois, é. Esse relógio também. E está no nosso quarto, onde trabalho no laptop. Já procurei um botão desliga-barulhinho. Não tem. A única alternativa é retirar a pilha. Provavelmente, meu marido nem notaria... Mas, estou em um dilema. Além de ser um presente, ocorre que não é meu. Como fazer para não magoar as partes ? Presenteador e presenteado ? Será que um post resolve ? Talvez um post com o barulhinho tic-tac... Estou aceitando sugestões... Meanwhile, transferi o tic-tac para a sala.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Para o meu pai

Pai, eu sempre te dava livros de presente, né ? Era mais fácil de acertar. Também te dei camisa, pijama, caneta... Mas, eu acho que o que você mais gostava era de livro mesmo. Então, eu já nem tinha mais o que decidir. Ano após ano, eu ia na livraria e resolvia. Prático. Ultimamente, não tenho que te dar mais nada, não...
A gente sempre conversava sobre os livros lidos, né? Lembra quando eu pegava livro emprestado e você sempre ficava me perguntando quando que eu ia devolver ? Ciumento... Mas, olha, eu continuo lendo, viu ? Não tanto quanto eu gostaria, mas estou sempre tentando. O último que eu li foi 'O Escafandro e a Borboleta', de Jean-Dominique Bauby. Fizeram um filme, também. Ainda não assisti. Pai, imagina, o cara é redator-chefe de uma revista francesa famosa. Super in. De repente, tem um AVC e fica em coma. Quando retorna, ele não consegue fazer nada: comer, falar, mexer. Nada. Seu único contato com o mundo é através do olho esquerdo. História verídica ! Com esse olho ele dita, quer dizer, ele pisca, todo o livro! Uma vez para dizer sim, duas vezes para dizer não, às letras do alfabeto que lhe são apresentadas. Vale a pena a leitura. Também terminei de ler, para as meninas, em paralelo, 'O Menino no Espelho', do Sabino. Elas adoraram! Falando nisso, lembrei de um outro livro, 'O Menino de Pijama Listrado', de John Boyne. Comprei para ler para as meninas, porque a história é contada por um menino. Mas, não deu para continuar. É sobre a infância dele, na época do nazismo. O pai era um alto oficial e eles moravam em uma casa em frente a um campo de concentração. Achei muito forte para elas. Reclamaram da interrupção da leitura. Mas, realmente não dava. Li até o final, só para mim mesma. E conforme as últimas páginas iam chegando, eu ficava querendo que o que eu achava que iria acontecer não acontecesse. Só lendo mesmo. Triste, mas bonito. Ah! Teve também o bestseller 'O Caçador de Pipas', de Khaled Hosseini. Outro livro bonito e triste. Fizeram um filme. Mas, eu não quero assistir, não. Prefiro ficar só no livro mesmo. Lembrei ainda do 'A Menina que Roubava Livros', de Markus Zusak. Esse é escrito de forma diferente. O narrador é A Morte. Difícil se acostumar, no começo, mas, passado esse estranhamento inicial, a leitura flui. Também na época do nazismo. Cativante. Teve, ainda, 'A Elegância do Ouriço'. Já falei dele aqui. E tem tantos outros que eu ainda quero ler... Devo isso a você, não ? Saudades, pai.

Presente do Dia dos Pais

Dia dos Pais. Próximo domingo. E aí ? Já escolheu o presente ? Meu marido me deu a entender, diretamente, que quer ganhar uma esteira elétrica. Eu lembrei a ele que nós já temos uma. Está encostada, lá na varanda. Tomando chuva, provavelmente. Mas, ele retrucou que a que temos é velha e barulhenta. Quer uma novinha, silenciosa e que possa usar, enquanto assiste à TV. Sem que ninguém note a geringonça em funcionamento. E sem que ninguém reclame (no caso, uma indireta direta para a minha pessoa). Bom, sutilmente perguntei a ele se, passados dois dias do presente ganho, ele iria continuar a se exercitar. Ele respondeu, confiante, que sim, l-ó-g-i-c-o. Como eu podia duvidar ? Afinal de contas, ele tem que eliminar a barriga, parar de se preocupar com o colesterol (coisa com a qual, definitivamente, cá entre nós, ele não se preocupa). Sugeri, timidamente, então, uma matrícula na academia. Como presente. Não. Não quer. Quer se exercitar em casa, na companhia da esposa e filhos. Afinal, já fica tão pouco tempo conosco... Ai, ai. Tá difícil. Última cartada: marido, onde nós vamos guardar essa nova esteira ? Não temos espaço ... Ele me garantiu que a nova esteira vai ficar incógnita pela casa. Os modelos novos são mais dobráveis, mais finos, mais potentes, mais silenciosos, mais mais... Bom, será que tem um botãozinho para ficar invisível, também ? Gente, só me resta ir atrás deste presente. Se daqui a alguns meses ouvirem falar de uma esteira que, acidentalmente, escorregou da varanda e se espatifou lá embaixo... Não foi aqui não, tá ?

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Pai


Sinto sempre a falta do meu pai. Às vezes, uma coisinha boba me remete a ele. E lá se vão mais de quatro anos de ausência. Ele sempre foi muuuuuito autoritário. Chato. Na adolescência, tive muita raiva dele. Depois, fui entendendo. Não concordava, mas compreendia. Mas, queria ter entendido mais. Falado para ele isso. Ligado mais. Beijado mais. Ele me passou o gosto pela leitura. Ele se esforçou para nos colocar em escolas boas. Eu aproveitei mais do que os meus irmãos. Peguei o tempo das vacas gordas. Quando ele morreu, não quis mexer nas coisas dele. Não tive coragem. Pedi apenas a televisão que eu havia dado para ele. Tem uma marquinha de queimadura de cigarro no controle remoto. Sempre que vejo, imagino uma cena para essa marca. Pedi, também, o livro do Vinícius 'Poesia Completa e Prosa'. Uma edição bem antiga, com capa dura, verde escuro. Tem praticamente toda a obra do Vinícius, tanto os textos, crônicas, peças de teatro, letras de música, quanto as poesias. Já li os vários poemas infantis dele para as meninas: O Pato, A Foca, A Casa, etc. Mas, o que eu mais gosto no livro, são as anotações do meu pai. Tem uns asteriscos nos títulos dos poemas. Às vezes, tem a rubrica dele e a data. Adoro pensar que ele folheou. Que ele marcou. Tem umas marcações que tem a letra K, junto com a data 24/01. Meu aniversário. Quero pensar que ele pensou em mim. Neste soneto, a data era 24/01/91:

Soneto da Rosa - Vinicius de Moraes

Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.
E da fraglante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, e agora
Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude.
Para que o sonho viva de certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza.

Tem uma marcação, também, em um outro poema. Penso que ele marcou para ele mesmo.

Velha História - Vinicius de Moraes
Depois de atravessar muitos caminhos

Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias…
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.

Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta

Olhou longamente para dentro de si
E voltou.

Saudades, pai.

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